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Quando a dor normaliza o inaceitável

Quando alguém passa tempo demais sendo desvalorizado, criticado, ignorado ou afetivamente negligenciado, pode começar a acreditar que esse é o idioma natural das relações. E então acontece algo perigoso: a falta de respeito deixa de causar estranhamento. O reconhecimento passa a parecer exagero. O cuidado, suspeito. A gentileza, improvável.

Essa lógica não se restringe aos relacionamentos amorosos. Ela se instala também no ambiente profissional, onde muitas pessoas permanecem em contextos de constante desvalorização, aceitando cobranças desproporcionais, silenciamento, falta de reconhecimento e até humilhações veladas. Não porque gostem disso, mas porque, em algum ponto da trajetória, deixaram de acreditar que merecem algo diferente.

A psicanálise ajuda a compreender esse mecanismo. Freud já apontava que tendemos à repetição de padrões psíquicos, mesmo daqueles que nos fazem sofrer. O familiar, ainda que doloroso, pode parecer mais seguro do que o desconhecido. Carl Rogers, por sua vez, ao tratar da construção da autoestima, mostrou como a percepção de valor pessoal é profundamente influenciada pelas experiências relacionais. Quem foi condicionado a receber aprovação escassa ou reconhecimento instável pode desenvolver a crença silenciosa de que precisa suportar para pertencer.

No trabalho, isso se traduz naquele profissional competente que aceita ser constantemente sobrecarregado sem reconhecimento. Na vida afetiva, naquela pessoa que se contenta com migalhas emocionais porque aprendeu a chamar ausência de independência e frieza de maturidade. Em ambos os casos, há uma ferida comum: a dificuldade de reconhecer o próprio valor. Mas há uma distinção fundamental entre resiliência e resignação nesses casos. Resiliência é enfrentar dificuldades preservando a própria dignidade. Resignação é adaptar-se ao sofrimento como se ele fosse destino.

Como lidar com isso? O primeiro passo é nomear o que acontece. Nem toda exigência é abuso, mas toda desvalorização recorrente merece atenção. O segundo é revisar crenças internas: por que aceito isso? O que me faz acreditar que preciso suportar para ser aceito? O terceiro, e talvez mais transformador, é reconstruir a autoestima por meio de relações mais saudáveis, autoconhecimento e, quando necessário, apoio terapêutico.

Quem se acostumou com a dor pode estranhar o cuidado. Mas estranhar não significa que ele não seja verdadeiro. A questão não é apenas encontrar ambientes ou pessoas que reconheçam seu valor. É deixar de negociar a própria dignidade por acreditar que merece menos. O amor, o respeito e o reconhecimento nunca deveriam parecer excessos.

Suely Buriasco

Mediadora Corporativa e Escritora

2026-05-26T03:05:52+00:00
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