Há travessias que só são possíveis porque encontramos uma canoa. O problema não é precisar dela. O problema é continuar carregando-a quando o rio já ficou para trás.
Conta uma antiga história que um homem chegou à margem de um rio caudaloso. A correnteza era forte demais para atravessá-lo a nado. Procurando uma solução, encontrou uma pequena canoa. Entrou nela, remou com determinação e alcançou a outra margem. Assim que colocou os pés em terra firme, ergueu a canoa sobre os ombros e seguiu caminhando floresta adentro. Depois de algum tempo percebeu que aquilo que havia sido indispensável para a travessia havia se tornado apenas um peso. A canoa já havia cumprido sua missão. A pergunta que essa história nos deixa é simples: qual é a canoa que você ainda carrega?
Ao longo da vida, todos construímos mecanismos para enfrentar a dor. Alguns nos protegeram em momentos difíceis, outros nos ajudaram a sobreviver quando parecia não haver outra alternativa. A desconfiança, o controle, o silêncio, a rigidez e até determinadas crenças nasceram como respostas inteligentes às circunstâncias que vivíamos. O sofrimento começa quando transformamos estratégias de sobrevivência em forma permanente de viver. Continuamos reagindo ao presente com as defesas do passado, carregando culpas, ressentimentos e medos que já não correspondem à realidade.
Donald Winnicott nos ensina que amadurecer também significa saber abandonar aquilo que já não é necessário. Crescer não consiste apenas em adquirir novas habilidades, mas em reconhecer que alguns recursos pertenciam a uma etapa da vida que ficou para trás. A espiritualidade nos conduz à mesma compreensão. Deus nos concede os instrumentos de que precisamos para cada travessia, mas não espera que façamos deles um fardo. Há um tempo para remar e outro para caminhar.
Talvez uma das maiores demonstrações de sabedoria seja compreender que gratidão não exige apego. Podemos honrar a canoa sem carregá-la nas costas. Podemos agradecer às experiências, aos aprendizados e até às dores que nos fortaleceram, sem permitir que continuem determinando nossos passos. Superar não é negar o passado, mas reconhecer que ele cumpriu seu propósito. A verdadeira liberdade nasce quando deixamos na margem aquilo que já cumpriu sua missão e seguimos adiante mais leves, porque quem insiste em carregar a canoa dificilmente consegue contemplar a beleza do caminho que ainda o espera.