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O Tribunal das Redes Sociais

As redes sociais aboliram as paredes do tribunal, mas conservaram o julgamento. Uma frase fora de contexto, uma fotografia ou um erro podem convocar, em minutos, uma multidão disposta a acusar e condenar. Não há investigação, direito de defesa ou tempo para compreender; o veredito costuma chegar antes dos fatos.

O filósofo Byung-Chul Han observa que a comunicação digital favorece reações imediatas e reduz o espaço da reflexão. Quando a indignação vira espetáculo, a pessoa deixa de ser vista em sua complexidade e passa a ser resumida ao recorte que viralizou. Atrás do perfil julgado, porém, existe uma vida, com família, trabalho e fragilidades.

O episódio “Nosedive”, da série Black Mirror, retrata uma sociedade em que todos avaliam todos, e a pontuação recebida define oportunidades e pertencimento. A ficção já não parece tão distante. Comentários impulsivos e avaliações injustas podem comprometer carreiras, destruir reputações, romper relacionamentos e provocar ansiedade, isolamento e sofrimento emocional. Denunciar abusos e cobrar responsabilidade são atitudes necessárias. O problema começa quando a crítica abandona o propósito de corrigir uma conduta e assume o desejo de humilhar. Justiça busca verdade, responsabilização e reparação; vingança busca sofrimento. Nas redes, essa fronteira pode desaparecer com um toque na tela. A distância física também anestesia a consciência. Quem comenta não vê a angústia depois do ataque, a família atingida ou a oportunidade perdida. Assim, a crueldade ganha aparência de opinião e, multiplicada por milhares de perfis, transforma-se em violência coletiva.

A Cultura da Paz não exige silêncio diante do erro, ao contrário, propõe firmeza com humanidade. Ninguém deve ser poupado das consequências de seus atos, mas ninguém deveria ser condenado sem contexto, proporcionalidade e possibilidade de reparação. Pessoas não podem ser reduzidas ao pior momento de suas vidas. Assim, antes de comentar ou compartilhar, convém perguntar: conheço os fatos? Minha manifestação contribui para uma solução? Eu sustentaria essas palavras olhando nos olhos dessa pessoa? Esse intervalo entre o impulso e a ação pode impedir danos.

No tribunal das redes, um clique parece pequeno, mas a sentença atravessa a tela e alcança a vida. Que nossas palavras não sejam pedras lançadas por uma multidão, mas pontes entre verdade, responsabilidade e respeito. Quando todos se tornam juízes, a humanidade inteira termina no banco dos réus.

 

Suely Buriasco – Mediadora Corporativa e Escritora

2026-09-16T01:45:23+00:00
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